Terra Fértil - Poesias

Identidade

Cansei de ser uma foto 3x4

Acompanhada por uma sequência de dígitos.

 

Cansei de ser número

No RG, CPF, Título de Eleitor,

Passaporte, Carteira de Trabalho.

A burocracia nunca me enxerga como gente.

 

Eles não sabem da cor azul

Que fui a Bahia e vi Dona Canô na festa de Reis

Que choro quando leio a Cor Púrpura

Nem que passo as tardes ouvindo Benito de Paula.

 

Cansei de ser número

Engrossando as estatísticas

De mãe solteira sem superior completo,

De mulher negra que sofreu violência doméstica,

Que agora sou parte dos 56% da classe C,

Segundo a revista Exame.

Vexame.

 

As estatísticas não sabem, por isso não divulgam

Ando triste, confusa e ruim da memória.

E no posto de saúde

Onde sou apenas mais um número no SUS

Não tem psicólogos para sequer uma consulta.

Desconfio que psicólogos devam atender

Apenas números inteiros e não os fracionados como eu.

 

Preocupa-me

No futuro, tudo ficará mais simples

Seremos como um código de barras

É só passar no leitor e pronto!

Teremos até preço

(a depender da inflação)

Um número com cifrão.

 

Lamento aos burocratas,

Aos analistas organizacionais,

Aos pesquisadores e estatísticos,

Enquanto houver brilho nos olhos

Não posso, nem quero ser só um número.
 

Cabernet Sauvignon

Um dia você vai me convidar pra jantar

Na sua casa nova,

À mesa eu, você e sua esposa.

Abriremos um Merlot argentino

Brindaremos aos novos tempos,

A família, a felicidade!

 

Será uma conversa animada,

De sorrisos sinceros.

E quando não estivermos mais sóbrios

Virão à tona as lembranças

De um passado vulcânico,

Entre militância, sexo e liberdade.

 

Falaremos dos nossos vinte e poucos anos

Das viagens e festas

De um tempo em que amor livre não era pleonasmo

E a falta de dinheiro não era tão foda

Quanto agora.

 

Talvez sua esposa não goste do enredo da conversa

Dos signos expostos nas entrelinhas

E tenha vontade de fazer escândalo

Mas vai preferir demonstrar elegância

Oferecendo mais uma taça

Que eu por deselegância

Vou aceitar.

 

Então mudaremos de assunto

Discutindo um tema pelego qualquer,

Como quem ganhou o Nobel da Paz

E tudo ficará tão agradável quanto antes.

 

E eu serei sensata,

Direi que está tarde, que preciso ir.

O casal gentilmente me conduzirá até a porta

Dizendo pra voltar outras vezes,

Numa despedida fria, tipicamente paulistana.

 

Entre tudo que eu poderia dizer

E não disse...

Prefiro Cabernet Sauvignon chileno.

Um dia você vai me convidar pra jantar

Na sua casa nova.

Um dia.

 

O grito

Tenho um grito entalado na garganta.

Um grito longo, fino, estridente,

Um grito dolorido, abafado.

Um grito de mulher.

 

Feminismo?

Não sabia nem o que era.

E mesmo antes de saber

O grito já estava lá.

Sempre esteve

Sufocado.

 

Em toda a parte

Em todos os lugares.

 

- Não tenha amigos homens.

- Lugar de mulher é no fogão.

- Mulher tem que se dar o respeito.

- Tá parecendo uma puta com essa saia curta.

- Madrugada não é hora de mãe de família ficar pela rua.

- Nem pense em transar no primeiro encontro.

- Seu batom vermelho está chamativo demais.

- Obedeça ao seu marido.

- Mulher de bar não presta.

- "Mulheres vulgares uma noite e nada mais".

Faça isso, não faça aquilo.

Seja assim, não seja assado.

 

Regras demais,

Condutas demais,

Proibições demais.

 

Por quê?

Pelo simples fato de ser mulher?

Até quando?

A encoxada matinal no ônibus,

A cantada barata do chefe cretino,

A passada de mão na escada do metrô,

Murros e pontapés do próprio companheiro.

Sem falar nos inúmeros casos de estupro.

 

Então é só isso?

 

Criar os filhos,

Cuidar da casa,

E servir meu sexo numa bandeja

Sempre que o outro quiser?

 

Nas multidões muitas mulheres estão mortas.

Dá pra ver nos olhares opacos

Morreram por dentro

E apenas vagueiam.

E quando as mulheres morrem

Os homens – rebentos de seus ventres

Ainda não perceberam

Mas também estão morrendo.

 

Não é possível

Ninguém vai fazer nada?

 

Mas há também as mulheres que lutam

Dá pra reconhecer pelo olhar firme e aceso

No vai e vem da marcha cotidiana.

 

Carrego comigo o legado

De minha mãe, de minha avó

E de tantas outras que me antecederam.

O grito que carrego também é delas.

 

Pelos prazeres que não puderam ter

Pelo corpo feminino que não puderam explorar

Pelo voto e palavras negadas

Pelo potencial não exercido

Pelo choro em lágrimas secas.

 

Tenho um grito entalado na garganta.

Um grito denso, volumoso,

Um grito ardido, de veias saltadas.

E hoje ele vai sair.

 

- O corpo é meu!

 

Ventre livre

Convivo com os rótulos

E me sinto como se fosse uma mercadoria

recém-saída da sessão de enlatados.

 

Não importa o país, o idioma,

No grande mercado das relações machistas

Uns se julgam mercadores e outros consumidores.

E já que a propaganda é a alma do negócio

O empenho é grande em atribuir adjetivações e classificações.

E quando o que está em jogo é o desempenho

Os mais aficionados deliberam até o miserável "selo de qualidade".

 

Nada são flores.

 

No linguajar próprio do mercado

Vão te negociar como uma buceta.

Vão te qualificar pelo peito ou bunda.

Vão desconsiderar sua inteligência.

Vão te vender no estoque e no varejo.

Vão querer saber sobre o tal prazo de validade.

Vão te desqualificar pra baratear o seu custo.

Vão te compartilhar em pedaços como amostra grátis.

Vão te categorizar segundo as preferências.

 

Haverá gôndolas e prateleiras à sua espera.

Virão os rótulos como infâmias.

Piranha: se tiver vontade própria.

Gostosa: se atender os padrões.

Vagabunda: se tiver transado com alguns.

Sapatão: se gostar de mulheres.

Maria-macho: se usar roupas largas.

Vulgar: se beber e rir alto.

Piriguete: se usar roupas curtas.

Desbocada: se falar palavrão.

Frígida: se não quiser transar.

Dadeira: se quiser transar.

Fácil: se não gostar de fazer charme.

Desocupada: se gostar da rua.

Estúpida: se tiver opinião própria.

Vadia: todas as opções anteriores.

 

Nos momentos de crise

Falarão da oferta versus a demanda

Da capitalização na bolsa de valores.

 

Vivendo esse cenário

É que fico sonhando com o dia

Onde não haverá nem bolsa, nem valores

Rótulo, ignorância ou opressão

Capazes de subjugar a força ancestral

de um ventre verdadeiramente livre.

 

Que os punhos permaneçam cerrados.

 

Prefiro a guerra

Telefone toca.

Sinto a navalha na carne

e o sangue esguichando.

Rapidamente os rumos mudam.

 

Rua de cima,

Rua de baixo,

É a porta direita do carro que se abre.

Sem pausas e sem sorriso.

 

Aquela boca morta.

A mesma boca que te beija

é a boca que te corta.

É a fala que sai da boca

que de fato me apavora.

 

Abro o portão

Subo as escadas.

Fogo morto

Tropecei na realidade.

 

A navalha era afiada

O sangue vai demorar a estancar.

 

O que você está esperando

O próximo episódio?

A próxima tragédia?

 

Se o amor é isso

Uma hemorragia interna

Eu prefiro a guerra.

 

Desensinamentos

Estão a moldar nossos pensamentos,

A roubar nossa autoestima.

 

Nos ensinaram um andar cabisbaixo.

Corpos curvados encaram o chão

Como se olhar o céu ou o front

Não fosse algo permitido para negras

Lavadeiras, cozinheiras, professoras,

Balconistas, cabeleireiras e universitárias

Como nós.

 

Nos ensinaram que somos feias.

As capas das revistas não nos querem.

Os garotos na escola não nos querem.

Os cargos executivos não nos querem.

Os maridos não nos querem.

Repare bem,

Está tudo assim desproporcional,

Grande demais, escuro demais.

Pelo menos ajeitem esses cabelos.

Estão a moldar nossos corpos,

A tirar nossa expressividade.

 

Nos ensinaram coreografias pré-moldadas,

Em que o balanço e a espontaneidade não cabem,

E assim, pouco a pouco deixamos de dançar.

Somos corpos reprimidos que pairam

Por medo de errar a coreografia,

De errar a medida, de errar...

Corpos doentes.

Corpos endurecidos.

Corpos infelizes.

 

Estão a moldar nossos sentimentos,

A negligenciar nosso sentir.

 

Nos ensinaram a ser fortes.

Aguentar o sol forte queimando a cara

Ao carregar a lata d'água na cabeça,

A aceitar humilhação da patroa,

A parir sem gritar ou gemer,

A criar os filhos sozinhas.

A esconder o choro de solidão,

A não pedir ajuda a ninguém,

A esquecer de si mesma.

Nos ensinaram a calar.

A não dizer o que sentimos, nem o que pensamos.

As coisas são como são e ponto. Tá entendido?!

Na prática ninguém costuma mesmo

Dar ouvidos a uma mulher, a uma negra.

Que diferença faz o que você disser?

Quantas vezes adiantou falar?

Eles sempre dirão

"você fica tão bonitinha assim, calada."

Aprender a calar antes que te calem.

 

(...)

 

Então um dia

Outras mulheres negras

Das mesmas fileiras que nós

Nos ensinaram que tudo que tínhamos aprendido

Era uma grande farsa.

 

Foi quando aprendemos a lutar.


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